agosto 12, 2025 Por William Lafontinne

Por que é tão difícil encerrar um ciclo?

Esse tema, que discuto nesta “quarta sessão” do meu canal, foi inspirado por uma conversa com meu amigo pessoal Dr. Thiago Bicalho, advogado especialista em LGPD, e sua companheira, Caroline Campos, psicóloga, pós-graduada em Neurociência e fundadora do Espaço Campos Verde — um espaço de cuidado e saúde mental em Salto/SP.

1. O que é neurose?

Na psicanálise, neurose não é “loucura” nem um diagnóstico reservado para poucos.
Segundo Freud, a neurose é a maneira que cada um encontra para lidar com o conflito entre:

  • O que deseja.
  • O que a realidade permite.
  • O que aprendeu que é “certo” ou “errado”.

Todos temos traços neuróticos — é parte de ser humano.
A questão é que, quando falamos de fins de ciclo, esse conflito pode se intensificar e se manifestar de dois modos:

  • Causas Exógenas (externas): quando algo fora de nós encerra o ciclo — como perder um emprego, viver um término imposto ou passar por uma mudança forçada.
  • Causas Endógenas (internas): quando o desejo muda, a energia libidinal já não está mais ali, e não conseguimos sustentar aquele papel — mesmo que por fora pareça tudo igual.

O grande desafio é alinhar o encerramento interno e externo. E quase nunca isso acontece ao mesmo tempo.

2. Luto x Melancolia

Em Luto e Melancolia (1917), Freud descreve dois caminhos possíveis diante de uma perda:

  • Luto saudável: a pessoa reconhece a perda, sofre, mas aos poucos desloca sua energia para novos investimentos de vida.
  • Melancolia: a perda não é plenamente aceita; o objeto perdido é “mantido” dentro de si, e o sujeito começa a se identificar com aquilo que perdeu, tornando o encerramento praticamente impossível.

É por isso que muitas vezes o ciclo já terminou no mundo externo, mas, internamente, continuamos presos nele — ou, ao contrário, já estamos emocionalmente ausentes, mas mantemos a forma para não enfrentar o vazio.

3. Por que é tão difícil fechar um ciclo?

A clínica mostra que há diversas razões pelas quais nos agarramos a algo que já acabou:

  • Fixação narcísica: confundir a própria identidade com o ciclo; encerrar é como perder quem somos.
  • Melancolia: manter o ciclo vivo internamente para evitar o trabalho de luto.
  • Supereu punitivo: a crença de que encerrar é fracassar ou desperdiçar o que foi construído.
  • Compulsão à repetição: o apego ao familiar, mesmo que doloroso.
  • Dependência simbólica: a necessidade do papel social que o ciclo nos dava (por exemplo, ser “o parceiro de alguém” ou “o funcionário daquela empresa”).

4. Exemplos do cotidiano

  • O relacionamento que acabou há anos, mas que ainda ocupa seus pensamentos como se pudesse recomeçar a qualquer momento.
  • O emprego que te esgota, mas que você mantém porque não sabe quem seria sem aquele crachá.
  • As roupas de uma fase da vida que já passou, guardadas no armário como prova de que um dia você foi aquela pessoa.

5. Encerrar fora e dentro

Encerrar um ciclo de forma saudável exige dois movimentos:

  1. Reconhecer a perda no mundo externo.
  2. Elaborar a perda no mundo interno.

Quando esses dois níveis não caminham juntos, ficamos presos — ora em algo que já não existe, ora em um papel que já não nos serve mais.

Encerrar um ciclo, portanto, não é só dar adeus ao outro, ao trabalho ou ao lugar.
É também reconhecer que aquela versão de você mesmo já cumpriu o que tinha que cumprir — e abrir espaço para se reinventar.

Referências

  • Freud, S. Luto e Melancolia (1917)
  • Freud, S. O Mal-Estar na Civilização (1930)
  • Escritos de Freud sobre causas endógenas e exógenas nas neuroses

💬 E você?
Qual ciclo da sua vida ainda está aberto — e o que te impede de encerrá-lo?
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