Van Gogh e a Psicose – E se fosse possível uma análise?
Por gostar muito da arte, eu sempre pensei num artista especificamente, quando conecto os temas de psicanálise com o campo artístico. Vincent Van Gogh, o mestre das cores vibrantes e pinceladas apaixonadas, acabou personificando o gênio perturbado. Seu tormento mental, marcado por alucinações, automutilação e isolamento, levanta uma questão crucial para os estudiosos da psicanálise: o que aconteceria se Van Gogh tivesse recebido acompanhamento analítico?
Para responder a essa questão, é essencial compreender sua estrutura psíquica. Muitos especialistas clínicos que analisam a psicose sob a perspectiva lacaniana concordam¹ que Van Gogh demonstrava uma estrutura psicótica estabilizada por um sintoma criativo. A teoria lacaniana sobre psicoses nos ajuda a entender que o indivíduo psicótico se forma a partir da foraclusão do Nome-do-Pai, ou seja, da ausência de uma inscrição simbólica fundamental que permitiria ao indivíduo lidar com a metáfora paterna e se estabilizar no campo do Outro. Em termos clínicos, o que isso significa? Que o indivíduo psicótico pode ter uma relação extremamente frágil com o simbólico, o que às vezes se manifesta em delírios, alucinações e atos impulsivos quando é atravessado pelo Real.
Van Gogh talvez tenha sido um dos maiores exemplos de tentativa de lidar com o Real através do próprio Real. Sua obra não era apenas uma expressão artística; era, acima de tudo, uma maneira de enfrentar um gozo invasivo, um excesso que não encontrava limites nem simbolização. Sua pintura era ao mesmo tempo suplência e sinthoma. Suplência porque funcionava como um substituto precário à função paterna foracluída (diferente de ‘sublimação’) — como Soler descreve ao falar da orelha cortada como uma tentativa de dar forma ao simbólico através do real.
A automutilação de Van Gogh, longe de ser apenas um ato de desespero, pode ser entendida como uma tentativa radical de inscrição subjetiva. Cortar a própria orelha e entregá-la a uma mulher foi um ato com valor simbólico e corporal, quase como se tentasse criar um “sinal” para o Outro. Na ausência de palavras que pudessem expressar sua dor, Van Gogh grita com o corpo. E ainda podemos pensar na simbolização da castração, nesse ato bruto.
No entanto, a psicanálise não busca “curar” o psicótico no sentido tradicional. Como Lacan destaca, trata-se antes de oferecer um limite ao gozo, uma forma de conectar o indivíduo ao simbólico, mesmo quando a metáfora paterna falha. Portanto, a questão não seria impedir o sofrimento de Van Gogh, mas talvez oferecer um caminho diferente de estabilização, que não exigisse tanta violência contra o próprio corpo. Gosto de pensar nas premissas apresentas por J-.D. Nasio em seus trabalhos “Os Grandes Casos de Psicose” e “Os Olhos de Laura”.
Uma abordagem centrada em Van Gogh poderia ter viabilizado certas associações, talvez pontos de apoio simbólicos que, embora frágeis, pudessem trazer alguma estabilidade ao sujeito. A transferência, nesse cenário, não surge como o processo típico das neuroses – onde o indivíduo direciona seu afeto ou conhecimento ao terapeuta – mas sim como uma ligação capaz de assegurar a continuidade da existência e da fala. Frequentemente, o indivíduo em estado psicótico atribui ao analista um papel de apoio à firmeza do Outro. Essa função se mostra crucial em momentos de desestruturação do universo interior.
Contudo, existe um aspecto fundamental: a pessoa em crise psicótica nem sempre busca análise. Na estrutura psicótica, o início da terapia pode depender mais de uma circunstância do que de um desejo consciente. Portanto, imaginar Van Gogh em análise requer considerar um contexto onde essa relação com o terapeuta não fosse vista como uma ameaça, mas como uma possibilidade.
É neste ponto que o compromisso ético do analista se torna evidente. Seria imprescindível que o analista resistisse à urgência do sintoma e à tentação de interpretar os delírios ou as automutilações como meras metáforas da neurose. Van Gogh não precisava de explicações sobre sua história infantil ou seus traumas; ele necessitava de alguém que tolerasse sua presença, que desse ouvidos ao que não pode ser nomeado e que oferecesse algum suporte perante a fragmentação do ser.
A arte de Van Gogh não foi somente expressão, mas a criação de um ponto de conexão. É nesse ponto que a psicanálise encontra uma de suas maiores similaridades com a criação artística. Ambos, arte e análise, podem servir como maneiras de integrar o sujeito à vida. Freud já afirmava que os artistas frequentemente desbravam caminhos para a psicanálise. Lacan, por sua vez, sugeriu a arte como substituição ao Nome-do-Pai na psicose. Van Gogh, assim como Joyce, criou uma obra que pode ter atuado como ligação subjetiva, uma tentativa de estabilização diante da ausência da figura paterna.
A ironia é que a arte nem sempre é suficiente. Van Gogh, apesar de sua produção notável, cometeu suicídio aos 37 anos. Isso nos força a questionar: e se ele tivesse tido um analista que o escutasse em sua lógica singular? E se alguém tivesse conseguido manter com ele um vínculo que não exigisse conformidade com a normatividade, mas sim aceitação de sua individualidade psíquica?
No trabalho com pessoas com psicose, aprendemos a importância de valorizar o ritmo individual, as criações pessoais e as formas únicas de encontrar prazer de cada um. Quem sabe se Van Gogh tivesse tido a chance de ser ouvido como indivíduo, em vez de ser simplesmente rotulado como um “lunático perigoso” pelos médicos da sua época, ele não teria precisado expressar seu sofrimento de maneira tão drástica através da sua orelha.
Van Gogh deixou para nós pinturas de estrelas, paisagens e retratos que continuam a nos emocionar. Cada traço do seu pincel foi uma maneira de expressar o que parecia impossível. Talvez o papel de um analista, se ele tivesse tido um, seria justamente reconhecer essa barreira intransponível e acompanhá-lo nessa jornada, sem tentar silenciá-lo ou “normalizá-lo”, mas sim oferecendo um espaço onde suas palavras, mesmo que desconexas, pudessem ser acolhidas.
Essa é a crença da psicanálise: mesmo quando a comunicação falha, ainda é possível criar conexões. E se Van Gogh tivesse encontrado essa conexão, quem sabe seu destino teria sido diferente. Ou talvez não. Mas sabemos que, enquanto a medicina o considerou doente, a arte o tornou imortal. E a psicanálise, se tivesse a oportunidade, o ouviria atentamente.
📚 Referências Bibliográficas:
FREUD, Sigmund. Neurose e psicose (1924). In: FREUD, Sigmund. Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud. Vol. XIX. Rio de Janeiro: Imago, 1996.
LACAN, Jacques. O seminário, livro 3: As psicoses (1955-1956). Tradução de Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: Zahar, 2008.
LACAN, Jacques. O seminário, livro 23: O sinthoma (1975-1976). Texto estabelecido por Jacques-Alain Miller. Rio de Janeiro: Zahar, 2007.
GUERRA, Andréa M. C. A psicose. In: KUPFER, Maria C. et al. (Orgs.). Psicanálise e saúde mental. São Paulo: Escuta, 2007.
SOLER, Colette. O inconsciente a céu aberto da psicose. Rio de Janeiro: Zahar, 2006.
NASIO, Juan-David. Os grandes casos de psicose. Tradução de Luiz Sérgio Henriques. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1998.
SCHREBER, Daniel Paul. Memórias de um doente dos nervos. Tradução de Maria Luiza C. S. de Moraes. São Paulo: Editora Unesp, 2000.

