Quando a gente olha para a psicologia do desenvolvimento e para a psicanálise, dá pra entender por quê as vezes parece ser tão difícil entender, dizer e sentir o amor. Os primeiros anos de vida, mais ou menos até os 6, 7 anos, são um período em que o cérebro e o psiquismo estão extremamente plásticos. A criança absorve o jeito como as pessoas se tratam, como se tocam, como brigam, fazem as pazes, demonstram cuidado. Ela aprende o que é amor do mesmo jeito que aprende o que é um copo: alguém mostra e nomeia.
Quando um adulto aponta e diz: “isso aqui é um copo” e, ao mesmo tempo, entrega na mão da criança, ele está ligando experiência e palavra. Quando diz: “é o cachorrinho, faz carinho no au-au”, está ensinando gesto, afeto e linguagem ao mesmo tempo. Com o amor deveria ser parecido. A criança precisaria ver amor sendo vivido, sentir esse amor no corpo, no colo, no cuidado, na proteção e ouvir esse amor sendo nomeado: “eu te amo”, “eu gosto de você”, “você é importante pra mim”.
O problema é que, em muitas famílias, isso não acontece de um jeito consistente. Às vezes os pais até dizem “te amo”, mas sem proximidade, sem gesto, quase como um “tchau”. Em outras, o afeto está presente em forma de cuidado, de presença, mas nunca é nomeado. Em outras ainda, há frieza, ironia, violência. Em todos esses cenários, a criança pode ficar confusa a respeito daquele sentimento. Imagine a seguinte situação: O pai briga com a mãe o dia todo e no final da noite, dá um selinho na mulher em frente a criança. Isso pode dificultar que ela entenda o afeto. O amor vem depois de uma briga? Brigar é sinal de amor? Amar é pedir desculpa? Beijar é mudar de assunto?
Da perspectiva da psicologia social, o que começa em casa não fica só em casa. A gente leva esse repertório afetivo pro mundo e o mundo reforça esse repertório. Se você cresce num ambiente em que carinho é raro, abraço é constrangimento e “eu te amo” é piada, é provável que, na adolescência e na vida adulta, você busque grupos em que isso também não aparece muito. Amigos que tiram sarro de demonstração de afeto, relacionamentos em que ninguém se expõe, famílias que se amam “à sua maneira”, mas sem olhar nos olhos e nomear.
Resultado: aquele padrão afetivo inicial, aprendido lá atrás, vai sendo reforçado. Com o tempo, vira crença. E crença não é só uma ideia. Crença é um modo do corpo reagir. Pessoas que não aprenderam a reconhecer o amor costumam estranhar sensações muito simples: um aperto no peito de saudade, uma vontade de chorar ao falar de alguém, um calor diferente quando pensam numa figura importante. Em vez de nomear isso como amor, muitas vezes o corpo responde com ansiedade, vergonha, taquicardia.
Na psicanálise, a gente costuma dizer que o corpo fala quando as palavras faltam. Se a história da pessoa foi marcada por situações em que expressar ternura trouxe humilhação, desprezo ou abandono, não é difícil entender por que ela trava na hora de dizer “eu te amo”. Mostrar amor, para ela, não é um gesto simples: é se colocar no mesmo lugar em que um dia foi ridicularizada ou deixada sozinha.
Por isso, para muita gente, amor é confundido com fraqueza.
Mostrar amor fica associado a:
- se expor demais;
- admitir dependência de alguém;
- correr o risco de parecer “bobo”, “meloso”, “fraco”, “menos homem”, “menos digno”.
Em alguns casos, mostrar amor ainda esbarra em outras questões profundas: identidade de gênero, sexualidade, lugares sociais. Dizer “eu te amo” para um pai rígido, por exemplo, pode ser vivido como arriscar-se a ser lido como “afeminado”; dizer “eu te amo” para um amigo pode ser confundido com desejo sexual; dizer “eu te amo” num ambiente religioso pode ser atravessado por culpa e proibições. Não é só a frase: é toda uma rede de significados que ela aciona.
Na clínica, o que aparece, em geral, é um movimento ambíguo. A pessoa sente, se emociona, transborda. Na hora de falar, congela. Às vezes alguém pede: “fala de novo que você ama ele”, e a resposta vem na lata: “não vou falar, não”.
Não é birra. É proteção. É como se ela dissesse: “se eu repetir essa frase, eu me coloco numa posição que sempre foi perigosa pra mim”.
A psicanálise ajuda a pensar isso de um jeito mais fino. Amor e desejo não são a mesma coisa. Desejo tem uma dimensão mais impulsiva, ligada às pulsões, à busca de prazer, à excitação, à falta. Amor é um modo específico de laço. Ele nasce, sim, de um terreno pulsional, mas implica também história, escolha, responsabilidade. Não é só “eu quero você agora”. É algo como: “a sua existência me importa, mesmo quando você não está aqui”. Amor é quando o outro deixa de ser só um objeto de descarga de desejo e passa a ser alguém cuja vida nos atravessa. Um companheiro, uma amizade, uma fraternidade… um laço que vai além das pulsões grosseiras. É como se a pulsão inicial tivesse passado por um refinamento. Partiu da pulsão, mas se refina com a cumplicidade, com o carinho, com a razão, com a validação.
Por isso o amor dá medo. Não porque o amor seja “irracional” ou “doentio”, mas porque ele revela o quanto estamos ligados a um objeto, a uma pessoa, a um vínculo, a uma relação. Dizer “eu te amo” não é só informar um sentimento. É assumir, sem anestesia que “eu estou envolvido; sua ausência me afetaria; eu corro o risco de sentir dor por sua causa”.
Agora pense comigo: se eu nunca aprendi a ligar essa sensação à palavra “amor”; se, na minha história, sempre que eu me aproximei desse lugar alguém riu, desprezou, puniu ou foi embora, como é que eu vou encarar essa palavra com naturalidade? Quando alguém me pergunta: “você ama essa pessoa?”, talvez eu sinta um calor no peito, uma vontade de cuidar, uma angústia só de imaginar perder. Mas, se eu não sei nomear isso como amor, vira um sentimento estranho, uma ansiedade… talvez, algo mais próximo do medo, porque me é desconhecido. Eu racionalizo: “não, é só amizade”, “é só carinho”, “é só hábito”. E, por dentro, fico tomado por um desconforto que eu não sei explicar.
É aqui que entra um ponto importante: não basta viver o amor em ato; é preciso, em algum momento, reconhecer que aquilo é amor. Não pra caber em um manual social, mas para que o sujeito possa se responsabilizar pelo que sente. Quando eu sei que amo alguém, eu posso decidir o que fazer com esse amor. Quando eu finjo que não amo, eu fico prisioneiro de atos que pareço não entender, como: ciúmes que nego, cuidado que desqualifico, saudade que chamo de “frescura”.
Na clínica, eu vejo muito isso: relacionamentos que terminam, pessoas que frequentemente dizem “foi uma merda, não quero falar disso” e, em seguida, já entram em outra relação, repetindo o mesmo roteiro. Daí a impressão, tão comum hoje, de que “amor não existe” ou de que “as pessoas se apaixonam por qualquer um todo dia”. Muitas vezes o que está em jogo ali não é o amor, mas o desejo, a carência, o medo de ficar só, a necessidade de validação, a compulsão à repetição. E, quando a gente chama tudo isso de amor, a palavra “eu te amo” perde densidade e vira “eu preciso de você pra não sentir o meu vazio”.
Amar, num sentido mais profundo, não depende da presença física constante. Eu posso amar alguém que está em outra cidade, em outro país, em outra fase da vida. O que define esse amor não é a quantidade de mensagens por dia, mas o lugar que essa pessoa ocupa na minha economia psíquica. A pergunta que talvez nos incomode é: “Se essa pessoa deixasse de existir, o que isso faria comigo?”
Nem sempre a resposta é “não sei viver sem ela” e nem precisa ser. Mas, quando a resposta é “isso me afetaria de um jeito muito específico”, é difícil negar que há ali algo da ordem do amor.
A grande questão é que, para algumas pessoas, assumir isso é quase insuportável. Porque significa admitir que está vulnerável, que não controla tudo, que depende, em algum nível, do outro. E vulnerabilidade, para quem sempre foi atacado quando se abriu, é um risco enorme.
Gosto muito de uma imagem simples para falar disso. No reino animal, quando um cachorro deita de barriga pra cima ou mostra o pescoço para outro, ele está numa posição vulnerável, está expondo uma parte vital. É quase como se dissesse: “eu confio que você não vai me ferir aqui”. Não é que o cachorro esteja “declarando amor” em sentido humano, mas é um gesto de entrega. Entre humanos, dizer “eu te amo” pode ter algo desse gesto: é como mostrar a jugular psíquica. É olhar pra alguém e, simbolicamente, expor o lugar onde você poderia ser destruído.
Por isso não faz sentido romantizar a frase “eu te amo” como se fosse só fofura, nem demonizar quem tem dificuldade de dizê-la como se fosse incapaz de amar. O que geralmente existe por trás da dificuldade não é ausência de sentimento, é história de dor. Histórias em que, ao mostrar a barriga, o sujeito levou uma patada, não um carinho.
E aí vem a boa notícia: assim como a gente aprendeu a se calar, também é possível aprender a nomear. Do ponto de vista neuropsicológico, a repetição é um caminho privilegiado de aprendizagem e dessensibilização. Do ponto de vista psicanalítico, repetir em análise, elaborar, ligar afeto e palavra, permite que o sujeito crie novas formas de dizer e sentir.
Traduzindo: o corpo pode aprender que dizer “eu te amo” não é necessariamente perigoso como um dia foi. Isso não significa banalizar a frase, muito menos transformá-la em bordão vazio. Significa tornar familiar uma sensação que antes era vivida só como ameaça. Quando alguém, por exemplo, decide dizer ao pai “pai, eu te amo” e sente vontade de chorar, de fugir, de mudar de assunto, é justamente aí que está o ponto vivo. Se esse gesto se repete em contextos minimamente seguros, o corpo começa a registrar que pode sentir isso e continuar existindo. Que isso não é perigoso.
Claro, não é só repetir a frase de qualquer jeito. Se eu digo “eu te amo” para manipular, para prender alguém, para convencer, eu continuo afastado do meu próprio sentimento. O que transforma é quando a palavra vem como nomeação honesta de algo que eu reconheço em mim. Não é sobre performance romântica; é sobre assumir que aquele laço me toca.
No fim das contas, o problema não está em dizer “eu te amo” pouco ou muito. O problema é quando a pessoa:
- vive um amor que não sabe nomear,
- oferece amor de um jeito que o outro não reconhece
- e, por cima de tudo, morre de medo de admitir para si mesma que ama.
“Não aprendi a dizer ‘eu te amo’” pode significar muitas coisas. Pode querer dizer que eu não tive modelos; que, quando tentei, fui ridicularizado; que internalizei a ideia de que amor é fraqueza; que confundo amor com desejo ou com dependência; que prefiro acreditar que “não ligo pra ninguém” a assumir o risco de me vincular.
O trabalho, na análise e na vida, não é virar alguém que sai despejando “eu te amo” pra todo lado. É, antes, poder responder com certa honestidade a perguntas simples:
“O que eu sinto por essa pessoa?”
“O que me acontece quando eu imagino perdê-la?”
“Eu consigo, dentro de mim, chamar isso pelo nome de amor?”
Quando a resposta começa a ser sim, ainda que tímido, ainda que com vergonha, ainda que com medo, algo importante já mudou. A palavra não cria o sentimento do zero, mas ela ampara, organiza e divide a responsabilidade com o outro: eu não apenas sinto, eu te digo o que sinto. A partir daí, o outro pode acolher, recusar, se assustar, corresponder. E sim: aí está o risco. Mas também está justamente aí a possibilidade de viver um amor que deixou de ser apenas sintoma silencioso do corpo para se tornar, enfim, uma experiência compartilhada.


Como já dizia Carlos Drummond: Que pode uma criatura senão, entre criaturas, amar?
De um modo ou d’outro, estamos cercados por esse sentimento. A reflexão que o texto me provoca, é sua forma de expressão e reconhecimento.
Ao observar a história, perdemos a conta da quantidade de indivíduos que buscaram, cada um ao seu modo, dar sentido ao Amor ou guiar as pessoas em sua direção. Várias mitologias e crenças que tentam ditar uma verdade: Quando sentido no âmago, não é possível contê-lo e, quando compartilhado, torna-se real.
Contudo, sinto que em nossa sociedade atual que a busca por essa compreensão se torna cada vez mais escassa. Nós, humanos, nos distanciamos desse sentimento enquanto nos perdemos em sucessivas relações sem sequer entender o que sentimos. Aceitamos o que nos disseram ser ‘bom’ com base no que nos foi ensinado, ou com base em nossas próprias experiências, mas raramente abrimos espaço para o questionamento.
É aqui que vejo a importância da psicanálise e do trabalho com a própria psique: buscamos não apenas compreender nossa forma de expressão junto ao mundo, mas, principalmente, entender como chegamos a ela.
Muito obrigado por sua contribuição ao texto, com elementos tão importantes, Eryk. Fiquei muito feliz com seu comentário!