Ensaio – Entre o Espelho e o Eco: Proceduralidade do Mal-Estar Contemporâneo
Por que ainda precisamos de Freud para entender o ano de 2025?
Freud nos mostrou que o desconforto não é algo que surgiu do nada, mas sim o preço que pagamos por viver juntos em sociedade. Ninguém está isolado das influências sociais: a cultura nos oferece a linguagem, os desejos e a sensação de fazer parte de algo, mas também nos exige sacrifícios como a repressão, a culpa e os problemas psicológicos. O que mudou desde que Freud escreveu sobre o mal-estar na civilização não é a existência desse preço, mas a maneira como ele se manifesta.
Antes, a regra era “você não pode”, mas agora a ordem é “você deve ser capaz de tudo”. Produtividade, visibilidade, desejo constante, não há descanso possível sem se sentir um fracassado. As pessoas de hoje não sofrem tanto por quererem o que é proibido, mas sim porque estão esgotadas pela obrigação de sempre querer e se mostrar bem-sucedidas. Joel Birman já havia notado: vivemos menos em uma época de repressão e mais em uma época de excesso de positividade.
É nesse contexto que a história de Eco e Narciso se torna uma forma antiga de entender o presente. Narciso, apaixonado pela própria imagem, representa a obsessão pela aparência: viver para manter uma imagem perfeita, sempre correndo o risco de desmoronar. Eco, condenada a repetir as últimas palavras dos outros, representa a falta de originalidade: sobreviver sem ter sua própria voz, apenas repetindo o que os outros dizem. Ambos os destinos levam à perda da individualidade: um perde a capacidade de se conectar com os outros, o outro perde a sua própria identidade.
No século XXI, esses dois problemas se tornaram ainda maiores. A cultura da imagem exige que as pessoas se mostrem sempre perfeitas, valorizando aparências impecáveis. A cultura da repetição recompensa quem concorda com tudo: quem segue a maioria é aceito, quem tenta ser diferente corre o risco de ser deixado de lado. A sociedade, portanto, recompensa tanto a exibição quanto a conformidade. O resultado disso é sentido no corpo: ansiedade, insônia, cansaço, esgotamento. Repetir o que os outros dizem é fácil, exibir-se é desgastante; em ambos os casos, o preço a se pagar é o desgaste físico e a perda da capacidade de se expressar.
Por que ainda precisamos de Freud em 2025? Porque ele nos deu a base para entender que o desconforto não desaparece, apenas se transforma. A psicanálise, quando combinada com a filosofia e a sociologia, continua sendo a ferramenta que nos permite identificar quando a obsessão pela imagem nos destrói e quando a falta de originalidade nos silencia. Identificar o problema é o primeiro passo para resistir. O objetivo não é acabar com a importância da imagem ou silenciar a repetição, mas sim encontrar um espaço para a liberdade: um espaço onde a voz possa hesitar, inventar e surpreender até mesmo quem está falando.
Uma sociedade saudável não é aquela que não tem reflexos ou repetições, mas sim aquela em que ambos não se tornam uma prisão. Entre a imagem e a repetição, sempre existe a possibilidade de um espaço de liberdade. É nesse espaço que a psicanálise ainda tem algo a oferecer – e também qualquer teoria que tente entender as pessoas nos dias de hoje.
E você, sente mais o peso do espelho ou do eco no seu cotidiano?

